CUSCO E O VALE SAGRADO

A Capital do Império Inca

Não sei se foi uma impressão pessoal ou se é consenso entre os turistas que chegam ao Peru, mas em meu primeiro contato com o povo peruano, que se deu em Cusco, me senti extremamente bem recebido. Cordialidade e sorriso no rosto foi o “cartão de visitas” que recebi ao chegar na antiga capital dos Incas. E que lugar bonito, só de caminhar por suas ruelas já temos a sensação de estar respirando história.

Patrimônio histórico pela UNESCO, Cusco (que em Quéchua significa “umbigo do mundo) é o principal destino turístico do Peru. Não por acaso, além de ter sido o centro administrativo e cultural dos Incas, possui diversos sítios arqueológicos nos seus arredores, sendo inclusive o principal ponto de partida para Machu Picchu. Dados antropológicos e arqueológicos apontam que Cusco é habitada há mais de 3000 anos, sendo considerada a cidade mais antiga da América do Sul. É  um verdadeiro museu a céu aberto!

A maioria das construções Incas foram destruídas após a invasão dos espanhóis, que utilizavam as pedras para construir as igrejas católicas e impor sua suposta superioridade. Curiosamente, quando houve um terremoto em 1950, as construções dos padres dominicanos ruíram e expuseram que tais construções haviam sido feitas acima do Templo do Sol, construído pelos Incas e que permaneceu intacto após o terremoto. A arquitetura de Cusco, de modo geral, é de influência espanhola, com uma mistura de arquitetura Inca, inclusive a igreja de Santa Clara e San Blas.

Atualmente, a cidade possui uma excelente estrutura para receber os turistas, diversos hotéis e hostels, inúmeras agências de turismo e opções gastronômicas que vão desde Mc Donalds e Starbucks até sofisticados restaurantes que servem o famoso Cevíche, prato típico da culinária peruana.

Catedral de Cusco

Abaixo, a Plaza de Armas: Catedral de Cusco, Igreja da Companhia de Jesus e Estátua de Pachacuti, fundador do Império Inca.

 

Parque Arqueológico de Saqsaywaman: Construído com pedras enormes, todas encaixadas com incrível precisão, até hoje não se sabe como os Incas cortavam essas pedras.

 

VALE SAGRADO DOS INCAS

O Vale Sagrado é uma região próxima a Cusco que foi ocupada pelos Incas devido as suas qualidades geográficas e climáticas. É o lugar onde se produz o melhor grão de milho do Peru. O Vale possui diversos rios, sendo o Vilcanota (também conhecido como Urubamba) o principal deles. Este rio vai até o Brasil e é ele que dá origem ao Rio Amazonas.

Mirador Taray com vista para o rio Vilcanota

Vilcanota em quéchua significa Via Láctea. Porque os Incas o chamavam assim? Explico. A Via Lactea é composta por diversas constelações e servia para os Incas como eixo de orientação para seus rituais, e também, como referência para o entendimento do clima terrestre. Todo o conhecimento da época era proveniente das constelações.  Ao longo das margens do Vilcanota, os Incas edificaram enormes construções, demarcando espaços rituais, nos quais se recriou em suas formas as principais constelações andinas. Para os Incas, tudo que era sagrado na terra tinha um reflexo no céu. Por isso o Vale Sagrado era muito mais que um nome ou um lugar comum, era uma forma de se situar no mundo, de entender a vida e a existência, sendo como um espelho da Via Láctea.

Gosto muito do conceito sistêmico que permeia a cultura Inca, de que tudo está interligado e mutuamente se influenciando. Acho realmente fantástica essa conexão que eles tinham com a natureza. Mas esse é apenas um dos aspectos que deixa qualquer um intrigado com a filosofia de vida e inteligência dos Incas. Vou contar mais alguns à seguir.

Dentre os principais sítios arqueológicos, estão Písac e Ollantaytambo. Visitei os dois e mostro abaixo um pouco de cada lugar.

Písac

Písac possui duas partes distintas, a atual e a antiga. A atual é habitada por um povoado, onde é possível comprar diversos artesanatos e jóias de prata. É também um lugar onde acontecem inúmeras festas, rituais e cerimônias típicas. A parte antiga é onde se situa o Parque Nacional Arqueológico de Písac, nele, existem diversas ruínas Incas e sistemas de terraços andinos.

Os terraços andinos são sistemas de agricultura criados pelo povo Inca e podem ser visto em quase todos os lugares por onde eles viveram: Isla del Sol, Písac, Ollantaytambo, Moray, Machu Picchu, etc. Os terraços eram feitos nas ladeiras das colinas e montanhas da região andina, deixando-as como uma escadaria gigante. Com isso a água da chuva não escorregava pelas ladeiras e penetravam a terra tornando-a mais fértil. Além disso, os terraços evitavam a erosão e deslizamentos de terra.

Em Písac, também é possível ver um antigo “cemitério Inca”. Nas paredes de uma montanha, os Incas faziam buracos que serviam túmulo para os corpos serem colocados junto com todos os pertences e riquezas matérias da pessoa, para que ela fosse para Hana Pacha (mundo futuro) junto com seus pertences. Esses túmulos foram saqueados após a invasão espanhola.

Cemitério Inca: Repare nos buracos desta montanha da foto abaixo, ali eram os túmulos Incas.

 

Ollantaytambo

O nome faz referência ao general Ollanta, personagem de um drama que já virou até filme. Diz à lenda que Ollanta, um bravo general que vinha de origem humilde, se apaixonou pela filha do Imperador Pachacútec. Ollanta então pediu a mão de sua amada para o Imperador, que não apenas negou, mas também o forçou a abandonar a cidade. Dez anos depois, após a morte do Imperador, Ollanta finalmente uniu-se a ela.

Local da maior vitória Inca sobre os espanhóis, Ollantaytambo era uma cidade que contava com um complexo militar, religioso, administrativo e agrícola. É um complexo arquitetônico monumental. Uma verdadeira obra de arte, principalmente se levarmos em conta a complexidade para sua construção e a qualidade de suas pedras. Como, por exemplo, o Templo do Sol, composto por gigantescos monólitos (imensas pedras únicas) e que estão no topo da montanha. Algumas dessas pedras são somente encontradas há alguns quilômetros da cidade. Como eles conseguiram levar essas rochas gigantescas até lá em cima? Mesmo depois de muita pesquisa, esse mistério vai provavelmente ficar pra sempre.

Ollantaytambo foi onde os pesquisadores encontraram os maiores indícios de como funcionava a arquitetura Inca, isso porque estava em processo de construção, tendo muita coisa inacabada. O mais impressionante em Ollantaytambo é saber que quase todas as pedras utilizadas, foram retiradas de uma pedreira que fica no topo de outra montanha. Os Incas utilizavam rampas e faziam sulcos ou saliências nas pedras para, através de cordas, descerem as rochas e depois subirem elas até o topo. Devia dar um trabalho enorme, sem dúvida, sempre aliando a técnica a muita força braçal.

Abaixo, nosso guia mostrando o Templo do Sol. Repare nas saliências próximas as extremidades de algumas das rochas. Acreditasse que elas eram utilizadass para facilitar o transporte, utilizando amarrações de cordas. Depois seriam polidas, porém, com a invasão espanhola, ficaram inacabadas.

Na foto abaixo, vemos a representação de Wiracocha (primeiro círculo), divindade criadora de toda cosmovisão Inca, esculpida há 140 metros de altitude. Ele estaria protegendo o antigo silo de alimentos (segundo círculo).

 

Uma curiosidade: Após um terremoto ocorrido no século XX , as rochas do topo da montanha ficaram parecendo o perfil de um guerreiro Inca (circulo vermelho na foto abaixo). Achou parecido? Eu demorei pra ver, mas depois que vi, parecia absurdamente nítido (rsrs).

 

Ollantaytambo é cheia de história, mistério, um lugar realmente especial. Indispensável para qualquer um que queira conhecer um pouco sobre os Incas e ver o que sobrou do seu Império.

De Ollantaytambo, pegamos o trem para o destino mais esperado, o clímax de nossa viagem: Machu Picchu! Mas essa parte eu conto no próximo post. Até lá!

Isla Del Sol e Ilhas Flutuantes de Uros

As belezas do lago Titicaca

O Titicaca é o maior lago da América do Sul e o mais alto (navegável) do mundo. O lago, que tem cerca de 8300 km² e está a 3821 metros acima do nível do mar, está localizado entre a Bolívia e o Peru. Em nossa viagem realizada pelos dois países, o Titicaca foi um divisor de águas, ou melhor, um divisor de terras, pois foi por ele que cruzamos de um país para o outro. Nessa passagem, visitamos duas ilhas do Titicaca, uma em cada país: a Isla del Sol, no lado boliviano e as Islas Flutuantes de Uros, no lado peruano. Como a visita foi curta, acabei fazendo poucas fotos, mas não podia deixar de compartilhar o que vi nessas ilhas incríveis!

ISLA DEL SOL

No lado boliviado do Titicaca, a Isla del Sol é o principal ponto turístico aos visitantes do lago. O acesso é feito por Copacabana, uma simpática cidade de onde saem as embarcações. A ilha é a maior (14,3 km²) e mais importante das 41 ilhas do Titicaca, ela é conhecida como a ilha sagrada dos Incas. Segundo estudos, ali nasceram Manco Cápac e sua irmã Mama Occlo, os fundadores do povo Inca. Existem muitos sítios arqueológicos em volta da ilha, como por exemplo, os santuários das virgens del sol, onde eram realizados sacrifícios de virgens dedicados ao Deus Sol.

Atualmente a ilha é povoada por indígenas de origem Quechua e Aymara, que se dedicam ao artesanato, pastoreio, agricultura e ao turismo. É uma oportunidade única para ter contato com a cultura local, os habitantes vivem em um universo bem a parte do resto do mundo, mantendo tradições e costumes típicos. Além disso, a beleza da ilha aliada a imensidão do Titicaca, transmitem uma paz enorme. Tive a oportunidade de presenciar o nascer do sol na Isla del Sol. Sabendo todo o simbolismo que o Sol e a ilha têm para o povo Inca, vou com certeza guardar a lembrança desse momento por toda a vida.

 

ILHAS FLUTUANTES DE UROS

Já no lado peruano do Titicaca, visitamos as curiosas Ilhas Flutuantes de Uros. Elas não são bem ilhas, pois flutuam, mas também não são embarcações. As ilhas são construídas com o uso de totoras, uma espécie de cana abundante na região. A base das ilhas é feita de blocos feitos com as raízes da planta, que são unidos, formando plataformas. Depois, são cobertos com ramos, ficando em média com 2 metros de espessura. Por serem feitas de totoras, as ilhas precisam de manutenção periódica para asseguras a flutuabilidade e podem assim, durar até 15 anos. Além disso, os Uros utilizam as totoras para fazer suas cabanas, embarcações, artesanatos, enfim… quase tudo. São ao todo 60 ilhas artificiais. O lugar é como um mundo paralelo, realmente incrível!

Os Uros são descendentes da era pré-colombiana e habitam essas ilhas há centenas de anos, buscando inicialmente protegerem-se da tribo Collas e dos Incas, que faziam ameaças as pessoas da região. Atualmente os moradores das ilhas vivem da pesca, artesanato e do turismo. A visita a ilha de Uros é um passeio de fato bem turístico e rápido, mas vale muito apena, afinal, você jamais encontrará um lugar como esse em outro canto do mundo.